Camnitzer é o artista com mais obras expostas
nesta exposição - um total de quarenta e nove trabalhos - e que
possui na Casa Daros uma coleção de grande importância. Na
obra
Two
Identical Objects,
de 1981, o artista utiliza uma nota de dinheiro e um pedaço de
jornal, que são postos de maneira semelhante, lado a lado. Camnitzer não deseja diferenciar os objetos, mas apontar para o
que os aproxima: o fato de serem feitos do mesmo composto, o papel.
Aqui o conceito de ilusão aparece com força, pois ao tratar o mesmo
papel de formas diferentes criamos uma ilusão de um valer mais que o
outro; ao investirmos poder ao dinheiro – no caso, o dólar, o
símbolo do poder financeiro no ocidente – somos iludidos com essa
sensação de poder que, contudo, a qualquer momento pode esvair-se.
Em
outro trabalho, intitulado
Compass,
de 2003, Camnitzer também tece uma crítica sobre a questão do
ocidente. No trabalho é usada uma bússola como referência à
localização, com seus pontos cardeais bem marcados. O que pauta nessa obra são dois desses pontos: o leste,
east,
e o oeste,
west mas
que no caso deste foi substituído pela palavra
best,
do inglês, melhor. Isso mostra a supervalorização do ocidente, com
sua economia, sua cultura, etc., em detrimento dos países do
oriente.
Leandro Erlich
(Argentina - Uruguai/Argentina)
Leandro Erlich é um artista conceitual argentino conhecido internacionalmente e famoso por suas obras ilusionistas e arquitetônicas, que na maioria das vezes são montadas em escala humanas. Utilizando espelhos, ilusão de ótica, inversões e reflexões, que convidam os expectadores a participar não somente no visual, mas ir além para aprofundar e confrontar com o estranhamento da obra e experimentar os dons da ilusão do artista.
Em
Cambiadores, Erlich utiliza ferramentas cotidianas que nos causam ilusões. Através de um jogo de luzes entre paredes, molduras douradas, espelhos, banquetas e cortinas, o artista que é conhecido como "arquiteto do incerto", criou um labirinto de espelhos bastante singular. Na instalação foram projetados diversos provadores/trocadores interligados, mas somente alguns possuem espelhos, que ao entrar causa uma confusão ou desespero, na ânsia de esticar as mãos para saber se é espelho ou é uma passagem para outro provador.
É uma sensação incrível que causa um confronto com as infinitas projeções de si, reflexos e perspectivas.
É um trabalho que envolve e que necessita a participação do espectador, que faz uma crítica à realidade, fazendo-nos questionar sobre o cotidiano, sobre questões de identidade, autoconhecimento e da própria existência. E que a realidade na verdade é inventada. É tão fictícia como a arte, e é construída através das vivências e perspectivas pessoais.
Teresa Serrano
(México - EUA)
Um dos trabalhos da artista é o curta
Boca de Tabla, que nos convida a
refletir sobre a percepção que temos de tempo e como esta é
incrustada de ilusões que criamos sobre proximidades e distâncias,
que, na mente, são reorganizadas de outras formas. No vídeo, uma
mulher espera por alguém e, para tornar a espera "menor",
põe a mesa, anda pela casa, toma um chá, muda de sapatos, se olha
diversas vezes no espelho, caminha pela casa etc. O "tempo de
relógio" que aquela mulher esperou durante o vídeo é bem
menor que o tempo do vídeo, que tenta expressar, na medida do
possível, como esse é sentido pela mulher.
Há uma grande mistura
de sons e sensações do passado, que continuam mesmo após a cena
terminar - indicando o quanto as ações passadas podem estar
acontecendo no tempo presente, o quanto, na nossa mente, o tempo pode
ser um bloco e como nossas percepções "reais" estão
permeadas de "ilusões" -, como o barulho do salto e da
chaleira, que parecem ser a dolorosa companhia da personagem, e a
fumaça do cigarro (plano que é repetido algumas vezes, expressando
a dimensão daquela sensação para a personagem, que vivencia a
mesma ação várias vezes, mesmo sem esta ser igual). Por fim, a
espera parece acabar, já que sua sombra na sala de espera, antes
expandida a infinitos momentos de um passado recente - que nos leva a
crer a imensa duração daquele momento para a personagem -, se torna
uma apenas: o presente puro.
Fernando Pareja & Leidy Chavez
(Colômbia - Colômbia)
O som de gritos e de algo girando rapidamente é a primeira coisa que se distingue quando o visitante adentra na escuridão da instalação criada pela dupla colombiana Fernando Pareja & Leidy Chavez. Na extremidade da sala, iluminado por luz estroboscópica, há um mecanismo circular e animado que mostra pequenos bonecos de cera saindo correndo de uma superfície arqueada e se jogando em direção ao vazio.
Correndo, gritando, caindo. Repetidamente e sem pausas, sem fim.
A princípio, parece apenas uma projeção tridimensional, como um brinquedo óptico, mas com o tempo, o observador, mesmo que quase num estado de hipnose, perceberá que está sendo enganado, que a ilusão está presente. Olhares em diferentes ângulos revelarão pequenos detalhes que mostram uma das características mais marcantes da dupla de artistas: dar vida a figuras imóveis e colocá-las em movimento, mesmo que para isso eles precisem usar algumas técnicas de ilusão. Mas a maior mágica por trás da obra não é tentar decifrar como o mecanismo intenso e curioso funciona. É entender a emoção e o protesto que ele quer passar.
Com uma pequena pesquisa, é possível descobrir que a cena que se repete é um reflexo da situação na província de Cauca, berço de Fernando e Leidy, e que enfrenta um conflito armado interminável entre o exército, as guerrilhas e os grupos paramilitares. Ainda assim, a obra pode ser universal, com tantos outros territórios que enfrentam ou já enfrentaram a mesma ou pior situação de guerra e caos. É um ciclo que representa um estado de violência do qual o ser humano ainda não conseguiu se libertar. Correndo, gritando, caindo. Só para começar tudo de novo.
Com isso, ao deixar a escuridão da instalação para trás - abalado, assombrado, maravilhado, num estado de forte conflito emocional, mas acima de tudo simpatizando com aquelas pequenas figurinhas que se jogavam no vazio sem uma razão aparente -, é impossível não se questionar se a paz e a liberdade não seriam também apenas ilusões.
Membros do grupo: Gabriela Silva, Isabelle Cardin, Rafaela Silveira e Ticiane Faria - Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro